terça-feira, 3 de março de 2020

Barreto e Hobbes, aproximações improváveis.

Cresci em um bairro pobre da cidade de Arujá, não quero contar vantagem em minha “miséria”, mas de alguma forma aprendi lições que perduram em minha formação até hoje. Para exemplificá-las irei fazer um paralelo quase que profano com o filósofo iluminista Thomas Hobbes. Este, nasceu na Grã-Bretanha, logo depois de uma tentativa de invasão da coroa espanhola. É fundamental lembrar que no tempo em que Hobbes estava vivo a Inglaterra era apenas uma ilha com diversos problemas dinástico a serem resolvidos, envolvendo a família Stuart.  Seu livro “O leviatã” é a expressão de sua visão sobre o Estado, vale lembrar que a terminologia Estado não existia portanto Hobbes utiliza um animal mítico, para ilustrar a sua concepção do que é o Estado.
 Outro ponto importante é que Hobbes promove uma oposição à concepção de Estado para Aristóteles, nessa concepção um homem que não vive em sociedade, ou é uma besta ou um semi-deus, o homem só deve atuar politicamente de maneira ética, para ele a família que forma eticamente os indivíduos, acima da família existe a vila,  ela fica no intermédio entre a família e a polis, esta última não é um contrato social, para Aristóteles o Estado tem o mesmo fim do indivíduo, ou seja, a contemplação da liberdade, o Estado deve se voltar para o indivíduo, entende-se por indivíduo aquele que não sofre demasiadamente carências externas. Outra oposição de Hobbes é a visão de Maquiavel do Estado  e sua relação com o governante, aqui existe no bojo da questão uma crítica ao Estado Absolutista. 
Em linhas gerais a análise de Hobbes compreende o indivíduo como fundamental na concepção do Estado e para isso ele remonta a vida do homem em seu estado de natureza, sua relação harmônica com o Estado é uma construção temporal, uma vez que os homens em seu estado mais primitivo passa a acumular poder por conta do medo da morte, da necessidade de acúmulo de recursos vitais e de sua própria preservação. Mas como isso tudo tem a ver com a minha vivência na década de 90 no Parque Rodrigo Barreto? 
O Barreto, como era mais conhecido, entre as décadas de 60 até 80 era uma fazenda que pertencia a uma família muito rica. Com o passar dos anos, a região foi loteada e vendida, aqui eu especulo que essa família deve ter obtido as terras por meios ilegais,  como resultado os compradores dos lotes não tinham as escrituras dos terrenos, ainda assim o bairro recebeu escolas, posto de saúde, água encanada (a cada três dias) e já no século XXI asfalto e iluminação pública. Por ser um bairro muito pobre, os terrenos eram baratos, e a presença do poder público era quase inexistente. Na concepção de Hobbes, existem vários tipos de poderes, o primeiro que quero relacionar é o instrumental, ele só existe por meio de instrumentos, como poder riqueza, amigos. Por incrível que pareça, em bairro pobres é possível enxergar uma reprodução da lógica de poder da sociedade, era visível que vizinhos que tinham carro, não estabeleciam relacionamento igualitário com vizinhos que não tinham, isso ocorria também por conta das casas com televisores, dificilmente você entrava na casa de quem tinha um televisor, as pessoas mantinha suas relações de poder graças aos instrumentos que eles possuíam. Aqui podemos relacionar outro aspecto, a riqueza é considerada uma forma de poder para Hobbes, um tênis de “marca”, uma roupa com etiqueta original e até um pastel na feira poderiam estabelecer uma relação de poder  por meio da riqueza, essa riqueza para Hobbes está ligada a outro tipo de poder, a reputação, que nada mais é de como os homens são conhecidos, para ele, os homens poderiam ser amados ou odiados conforme sua reputação, na periferia existe essa relação de amor e ódio muito visivelmente. A eloquência e a beleza são outras duas formas de poder, ser eloquente na periferia pode ser relacionado ao poder de contar vantagem em determinadas situações, seja em uma partida de futebol, bem como um relacionamento amoroso. Os nobres também exercem poderes, porém seu poder é limitado ao local de onde ele tem origem, existe uma limitação geográfica no poder da nobreza, muitos vizinhos mudaram para o Barreto depois de saírem de bairros da capital como Água Branca, Tucuruvi e o Horto Florestal, suas memórias saudosistas e seletivas transformaram esse bairros em condados de príncipes, mas no Barreto esse tipo de poder era limitado a memória. Em um lugar pobre, a ciência quase nunca é valorizada, quando me refiro a ciência, me refiro especificamente aos estudos, mas existia uma lógica relação de poder neste quesito, os meninos que estudavam no Esli ou no Renê, usavam uniforme, tinham mochilas de marcas e tênis legais de ir a escola, nós que estudávamos no Strauttman e no Edir éramos taxados de burros, em Hobbes encontramos a ideia de que o poder da ciência é deixado de lado pois quase ninguém conhece a ciência e ele só é válido para quem tem o domínio dele. 
Outros conceitos importantes como valor, que é fruto de uma variável temporal pode ser observado no Barreto. Por exemplo, eu sempre fui muito ruim no futebol, apesar de gostar muito de jogar, logo eu era sempre um dos últimos a ser escolhido para os times.Entretanto existem dois momentos  em que essa lógica mudava seus valores, o primeiro era quando o meu irmão mais velho (melhor jogador e mais forte que eu), exigia que eu fosse escolhido para jogar no time dele. Na segunda situação era quando a bola que estava sendo utilizada era minha. Para Hobbes isso é uma variável importante para medir o valor de uma pessoa. Obviamente este nesto não tem a pretensão de ser uma escrita acadêmica, mas é honesto em suas aproximações, espero que vocês apreciem com moderação. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Estados Totalitários e o Brasil de Bolsonaro

Recentemente o debate em torno das liberdades individuais e da democracia tem ganhado força. As ações políticas de determinados sujeitos nas eleições de 2018 tiveram como eixo principal a representatividade coletiva em torno do ideias e principalmente ideologias. O combate as esquerdas tomaram coro e concordância massificada com o combate a corrupção. De fato a junção dessas ideias por si não são novidade no Brasil, as mentes mais aguçadas se lembrarão do famoso “varre-varre vassourinha” de Jânio Quadros, sua marchinha propositalmente o colocava como a esperança de um povo abandonado, se utilizando de uma figura tão comum nos lares brasileiros, Jânio, representava o contra corrupção dos políticos de fala mansa e mãos rápidas. Sua falta de articulação e apoio o levaram a um dos momentos políticos mais constrangedores do Brasil, uma renúncia, carregada incógnitas e construções equivocadas da realidade política do Brasil. O resultado desse processo foi um impasse político que quase nos levou a iminência de uma guerra civil e a conclusão de um golpe Civil Militar em 1964. 
O que podemos pontuar de diferente na conjuntura de 1960 e na atual situação política e econômica do Brasil? Acredito que para responder a essa pergunta seria necessário avaliar os escritos de Hannah Arendt, filósofa de origem judia e exilada nos EUA, Ardent buscou analisar os governos totalitárias utilizando por base a construção histórica que levou a sua “legitimação”. De inícios podemos pontuar que no século XX, esses regimes totalitários se justificavam por meio da história como no caso da URSS ou por meio da biologia, como no caso do nazismo. Cada regime teve por ponto principal um discurso voltado para ideologização das massas como homogêneas, isolando seus indivíduos, Arendt busca diferenciar o isolamento da solidão, para ela no primeiro caso os sujeitos são privados de estabelecerem uma comunicação consciente sobre suas situações, reforçando sempre o caráter coletivista de forma que suas individualidades são limitadas, para ela, ao se tornar parte da massa o indivíduo perde o interesse em suas próprias necessidades. 
No que diz respeito a legitimidade, Arendt nos traz a reflexão que os regimes se solidifica transformando o que antes era de todas as formas repugnantes em atos comuns, como por exemplo a banalização da violência, de forma que esta seja justificada pela necessidade de legitimação do Estado. Todas as formas de Estado buscam determinadas legitimidades,  Estados republicanos o princípio básico é a representatividade, em uma monarquia o princípio básico é a linhagem, em um despotismo o princípio é o medo, em um Estado Totalitário, a legitimidade está ligada ao terror. O nazismo utilizava o terror da mistura de raças, o inimigo vermelho e as memórias da primeira guerra, criando assim um contexto de terror, onde apenas um líder que não recuasse e não tivesse feição de medo poderia enfrentar. Neste sentido o nazismo praticava essa concepção de terror neutralizando seus inimigos,  ou seja, estava em constante movimento de expansão, com sua máquina de terror. 

Encontramos aqui, uma necessidade de todos os regimes totalitários, reduzir a concepção ideológica de Estado ao poder executivo e a figura ilibada do grande líder, o culto a persona, quase que em uma transfiguração divina de alguém incorruptível pode ser muito bem percebida nas eleições de 2018. A mobilização das classes médias urbanas em favor de um projeto de Estado voltado para uma concepção purista e messiânica, a guerra constante contra as ideologias degeneradas, que atentam contra a família, são marcas visíveis do nosso totalitarismo tupiniquim. Com certeza você deve achar exagero de minha parte, e isso é um bom  sinal, entretanto ao aproximarmos nossas lentes para as massas defensoras desse estado de coisas que estamos vivendo, percebemos que não se trata de política por ela mesma, se trata de movimento de constantes avanços em testes, orquestrados e com a "
capa" de desorganização. O que verificamos na prática é uma tentativa de desmontes dos poderes do Estado de direito, de forma que seus protagonistas abrem mão de sua individualidade na defesa de uma governabilidade. É mais que necessários que as instituições democráticas sejam reforçadas, que suas ações sejam cada vez mais pautadas em seus papéis institucionais. Só assim evitaremos desastres políticos desnecessários, como a situação insustentável que vive o Ceará, onde milicianos tomam fingem uma legitimidade inexistente, fazem de refém os cidadãos. É mais que necessário uma repreensão institucional que coloque fim as falas insanas de um presidente que banaliza os bons costumes, a cordialidade e o decoro do cargo. e finalmente é preciso uma investigação séria que tire todo o resquício de dúvida em casos que envolvam as autoridades e a morte de milicianos.  

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Pratos Azuis

Todos nós sabemos como é o fim de ano, comida farta, gente em casa, fogos, alegria, especial de artistas na televisão, mais comida e no final, louça para lavar. Aqui em casa não foi diferente, a louça ficou para o dia 1º de Janeiro e para celebrar a paz mundial eu lavei a louça enquanto ouvia as notícias no Jornal Hoje. Mas uma coisa me chamou atenção, os pratos que utilizamos na sobremesa, azuis com desenhos de passarinhos quase uma louça portuguesa que ganhamos no casamento, estavam intactos, novos e inclusive com a etiqueta do preço que pagamos, R$ 24,90. Me veio a mente uma questão: Porque não utilizamos os pratos? Não é incomum isso acontecer em nossas casas, afinal, sempre guardamos a melhor roupa para sair, a melhor louça para a visita especial, o sapato novo para eventos importantes.
Você deve estar se perguntando o que tem de errado nisso? Nada! O problema não é separar algo especial para uma situação especial, o problema é quando fazemos isso somente por uma questão de capricho, ou seja, quando deixamos de valorizar as pessoas pelo que elas são e valorizamos as coisas pelo que elas representam. Em muitos momentos não utilizamos os pratos azuis porque temos medo de quebra-los ou porque quem vai utilizar está sempre em nossa casa; ou simplesmente porque o tal do prato azul se tornou um totem da nossa sofisticação e não podemos “gasta-lo” em qualquer momento ou com qualquer pessoa. Diante disso nos privamos de utilizar o que temos de melhor com desculpas socialmente construídas e sustentadas com argumentos inválidos e evasivos. Deixamos de dar o nosso melhor para quem realmente merece, geralmente quem mora na mesma casa, dividindo o mesmo teto, as mesmas lutas, limitações e problemas. E na maioria dos casos privamos a nós mesmos de utilizar o que temos de melhor, pois não acreditamos que merecemos isso!
Eu quero utilizar mais os pratos azuis que guardo no meu peito. Quero dividir com meus amigos, quero compartilhar com meus familiares e valoriza-los com o que eu tenho de melhor. Não se trata de pratos, se trata do que eu tenho de melhor que esta aqui no interior. Eu sei que você também tem algo de melhor dentro de você, algo que em muitos momentos trata como pratos azuis, e que com isso acaba privando quem realmente merece. Mas utilize esse momento como um referencia para mudança de critério, entregue o que você tem de melhor para quem esta sempre com você, para quem sabe dividir tudo e nem se quer exige a utilização de pratos azuis.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Igrejas Gourmet




Fazem alguns meses que pretendo falar desse tema. O que irei tratar não é algo novo, pelo contrário, faz parte de nosso cotidiano e estamos inteirados com o assunto. O termo gourmet vem se tornando cada vez mais popular em diversos lugares, inicialmente ele era utilizado apenas para classificar algum tipo de comida, bebida, algo que fosse extremamente bem elaborado para expectadores que tivesse uma grande exigência com relação ao paladar, olfato e visual do prato.
            Hoje percebo que o termo Gourmet tem se tornado cada vez mais comum em diversas áreas e locais, temos coxinha gourmet, bar gourmet, hambúrguer gourmet, salada gourmet, maionese gourmet, pastel gourmet, sorvete gourmet, pizza gourmet... a lista é inacabável. Mas o “selo” gourmet foi além e nossa sociedade precisa de mais, não ficamos satisfeitos em ter apenas a comida gourmet e agregamos o valor que foi atribuído a culinária gourmet para todas as áreas de nossa vida, como se tudo que possuímos ou que gostamos ou que consumimos se tornasse de uma hora para outra gourmet. Pensem os apartamentos precisam ter a tal da sacada gourmet, pois sem ela, ele é apenas mais um apartamento popular. O shopping não pode ter aquele antigo apelo popular uma vez que temos os novos espaços para compras, pensados e elaborados com o mais alto padrão de qualidade para transforma sua experiência de compras em única. Os bares e restaurantes precisam se desvincular daquela visão pitoresca e arcaica de mesas, cadeiras e pratos, o atendimento, a decoração e até mesmo o banheiro do lugar precisa estar em ordem com a proposta. O nosso futebol esta cada dia mais gourmet, vale lembra que as novas arenas buscam mais do que a simples experiência de assistir uma partida de futebol, elas oferecem aos seus expectadores uma experiência única e um espetáculo completo. 
Agora você deve estar pensando, “ta, e dai? Você é contra tudo isso? Prefere como era antes?” Não nada disso. É fato que quando elevamos o padrão das coisas a consequência é quase sempre o aumento imediato do valor de acesso a isso. Olhe por exemplo o caso do nosso futebol, o torcedor deixa espaço para o expectador, e este paga varo para ver o espetáculo, e esse é o movimento que causa o raio gurmetizador, um bolo de fubá cremoso feito em casa e com um sabor parecido com aquele bolo de fubá cremoso gourmet é inúmeras vezes mais barato. Porém tudo isso não tem muita importância para nós, pois não pagamos pelo produto, estamos pagando pela experiência que esse produto esta nos proporcionando. Meu medo começa quando começo a observar que o raio gourmetizador começa a atingir nossas igrejas, hoje é comum vermos igrejas com fundos pretos, equipamentos de iluminação, reprodução de imagens e lazer durante o louvor, ar condicionado, apelo de espetáculo e pompa de arte, a figura de um pastor descolado e jovial, pregando uma palavra para espectadores. Tudo isso dentro de uma proposta de evangelho que busca a satisfação do indivíduo em primeiro lugar, pessoas que entram com um ideal de igreja e saem com a realização desse ideal. Um evangelho neutro, equilibrado, sem exagero, de fácil entendimento, limpo, bonito de se ver, simples de pregar. Sem vida, sem amor, sem interação, sem sangue e cruz, o sofrimento de Jesus é bonitinho, mas fica isolado a datas como o natal e a pascoa, Apocalipse é um livro estranho da bíblia como aqueles que nós ignoramos, Rute, Cantares, Amós, Obadias... O lema é amor pelas almas, mas esquecem do amor por Cristo, aliás esse Cristo é bom para compor o slogam da igreja mas ele não orna com igreja gourmet. 

sábado, 14 de novembro de 2015

Enquanto ELA dorme...

...eu vou aproveitar para falar para mundo o quanto ela me faz bem.
Enquanto ela dorme...
... eu quero testemunhar que sou muito mais feliz agora...
Enquanto ela dorme...
...eu percebo que a melhor das viagens pode ser simples como uma visita ao Lago dos Patos, mas se ela esta ao meu lado tudo fica mais bonito, e mais importante.
Enquanto ela dorme...
...percebo que meus planos e metas de futuro são milimetricamente traçados e desenvolvidos para faze-la feliz.
Enquanto ela dorme...
...vejo minha concepção de família mudar e encontro na minha casa meu porto seguro.
Enquanto ela dorme...
...vejo que um mundo que é tão meu e tão grande se tornar um quintal diante da felicidade que nossas conversas me proporcionam.
Enquanto ela dorme...
...percebo que o pedal da minha bicicleta que por tempos foi importante se torna um objeto quando olho para o sorriso dela ao me receber na porta de casa todos os dias.
Enquanto ela dorme...
...entendo que nem sempre podemos ser felizes no casamento, mas que podemos sentir alegria em todas as coisas, inclusive nas perdas.
Enquanto ela dorme...
... vejo que estar certo o tempo todo não é importante, pois se fosse assim balança de peso não ficaria na porta da farmácia e se cobraria uma fortuna para usá-la. Estar certo é só uma questão de ponto de vista.
Enquanto ela dorme...
... o mito do andrógeno faz todo sentido.
Enquanto ela dorme...
...olho para seus cabelos negros entrelaçados ao meu peito e ao seu ar de tranquilidade enquanto ela se arruma para ficar com a cabeça reclinada me fazendo sentir a sensação de ser o homem mais forte do mundo.
Enquanto ela dorme...

...eu planejo mais um ano do lado dela, eu até poderia pensar em fazer outra coisa, ou estar com outra pessoa, mas... 
...enquanto ela dorme eu percebo que não existe no mundo ninguém que me faça tão bem assim só de dormir ao meu lado. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Minha homenagem aos meus professores.

Fiz esse video com a contribuição de alguns alunos. Gostaria de expressa o que sinto ao ser professor e minha gratidão a alguns guerreiros que tem acredito em meu trabalho como Coordenador Pedagógico na Escola Estadual Fabio Fanucchi.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Pátria aRmada Brasil. 7 de setembro e o engano da democracia militarizada, 200 anos tentando descobrir o que é a democracia.


Essa semana eu tive a oportunidade de participar de um ato público em comemoração ao 7 de setembro. Na escola em que trabalho, os alunos ensaiaram por meses a Banda Fanfarra e as coreografias das balizas, e prepararam cartazes comemorando a tão emblemática data. Tudo muito bonito, organizado e bem trabalhado. E justamente neste contexto que a cerimônia teve inicio, Hino Nacional, Hino da Independência e o Hino da Cidade. Logo após entraram em cena para discursar o Secretário Municipal da Educação e uma série de outras autoridades.  Mas o que me impressionou foi a homenagem de um jovem de pouco mais de dezoito anos às autoridades presentes, e a apresentação de armas com marcha do Exército, Polícia Militar e a Guarda Municipal. Tudo muito bem organizado e bonito. 
Mas fazendo um paralelo, eu começo a observar que os civis foram os últimos a passarem no cortejo. E então surgiu minha indagação...o que o 7 de setembro representa para nós?
Vamos para o começo da história. Após 1808 (ano da chegada da Corte portuguesa ao Brasil), a maior colônia portuguesa nunca mais foi a mesma. Houve grandes transformações, implantação de faculdades e bancos, abertura de portos e comercio, e um grande desenvolvimento urbano. Tudo isso para adequar o Brasil aos padrões dos nobres europeus que mudaram para cá. Quando D. João resolveu retornar a Portugal, quase que compulsoriamente, ele deixou seu filho D. Pedro no Brasil, que deveria ser o representante da extensão da Corte portuguesa no Brasil. O fato é que D. Pedro, influenciado pela Inglaterra e por um grupo de comerciantes brasileiros e portugueses que tinham interesses no Brasil, resolveu tomar medidas populares aos Brasileiros, e impopulares aos portugueses e a igreja católica. Todo esse processo vai ter seu ponto de explosão no ano de 1822, na viagem de D. Pedro à São Paulo, que apesar de não ter a importância de hoje era um entreposto comercial e rota de passagem para destinos como Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso. O bairro do Ipiranga na cidade de São Paulo não existia, mas o riacho que passava por ali era importante para alguns agricultores que residiam na região, e foi esse riacho que serviu de plano de fundo para o “grito” tão famoso de D. Pedro. Antes desse afamado ato, ele já havia sinalizado no “Dia do Fico” que possivelmente isso poderia acontecer. A independência de Portugal só aconteceu mesmo após 1826, quando os portugueses reconheceram o Brasil como uma nação independente e assim finalizando um processo de independência e iniciando outro de dependência, mas agora de outra nação, a Inglaterra.  

Anos se passaram e ainda somos uma nação que não entendeu o sentido dessa palavra “independência”. Nossa comemoração é marcada por símbolos militares, com armas e salvas de guerra. Pouco avançou no quesito democracia, saímos do julgo português e entramos no julgo da família de Bragança, que perdurou até 1889 e ainda existem pessoas adeptas as ideias de que o sangue vale mais que o direito. Outros transformam essa data em palanque político, do qual só se defende os interesses de uma minoria. Alguns vivem atrasados no tempo, defendendo uma data com viés militarizado, com juras as armas e ideias de combate como forma de patriotismo. O que deveria ser o 7 de setembro? Deveria ser uma data singular, representante de um sentimento de pertencimento de um povo, onde os ideias políticos e as orientações partidárias fossem colocadas de lado. Onde o povo demonstra mais interessado do que o militar, onde as salvas e honras deveriam ser destinadas ao povo e não a autoridades de farda ou representantes de cargos. Temos que reinventar o 7 de setembro e transformar em uma data comemorativa, sem desfiles de carro oficiais,  e sim da sociedade civil!  

D.João VI

Quadro de Pedro Américo feito em 1888, é uma reprodução do "ideal da independência", longe do que realmente aconteceu.