Cresci em um bairro pobre da cidade de Arujá, não quero contar vantagem em minha “miséria”, mas de alguma forma aprendi lições que perduram em minha formação até hoje. Para exemplificá-las irei fazer um paralelo quase que profano com o filósofo iluminista Thomas Hobbes. Este, nasceu na Grã-Bretanha, logo depois de uma tentativa de invasão da coroa espanhola. É fundamental lembrar que no tempo em que Hobbes estava vivo a Inglaterra era apenas uma ilha com diversos problemas dinástico a serem resolvidos, envolvendo a família Stuart. Seu livro “O leviatã” é a expressão de sua visão sobre o Estado, vale lembrar que a terminologia Estado não existia portanto Hobbes utiliza um animal mítico, para ilustrar a sua concepção do que é o Estado.
Outro ponto importante é que Hobbes promove uma oposição à concepção de Estado para Aristóteles, nessa concepção um homem que não vive em sociedade, ou é uma besta ou um semi-deus, o homem só deve atuar politicamente de maneira ética, para ele a família que forma eticamente os indivíduos, acima da família existe a vila, ela fica no intermédio entre a família e a polis, esta última não é um contrato social, para Aristóteles o Estado tem o mesmo fim do indivíduo, ou seja, a contemplação da liberdade, o Estado deve se voltar para o indivíduo, entende-se por indivíduo aquele que não sofre demasiadamente carências externas. Outra oposição de Hobbes é a visão de Maquiavel do Estado e sua relação com o governante, aqui existe no bojo da questão uma crítica ao Estado Absolutista.
Em linhas gerais a análise de Hobbes compreende o indivíduo como fundamental na concepção do Estado e para isso ele remonta a vida do homem em seu estado de natureza, sua relação harmônica com o Estado é uma construção temporal, uma vez que os homens em seu estado mais primitivo passa a acumular poder por conta do medo da morte, da necessidade de acúmulo de recursos vitais e de sua própria preservação. Mas como isso tudo tem a ver com a minha vivência na década de 90 no Parque Rodrigo Barreto?
O Barreto, como era mais conhecido, entre as décadas de 60 até 80 era uma fazenda que pertencia a uma família muito rica. Com o passar dos anos, a região foi loteada e vendida, aqui eu especulo que essa família deve ter obtido as terras por meios ilegais, como resultado os compradores dos lotes não tinham as escrituras dos terrenos, ainda assim o bairro recebeu escolas, posto de saúde, água encanada (a cada três dias) e já no século XXI asfalto e iluminação pública. Por ser um bairro muito pobre, os terrenos eram baratos, e a presença do poder público era quase inexistente. Na concepção de Hobbes, existem vários tipos de poderes, o primeiro que quero relacionar é o instrumental, ele só existe por meio de instrumentos, como poder riqueza, amigos. Por incrível que pareça, em bairro pobres é possível enxergar uma reprodução da lógica de poder da sociedade, era visível que vizinhos que tinham carro, não estabeleciam relacionamento igualitário com vizinhos que não tinham, isso ocorria também por conta das casas com televisores, dificilmente você entrava na casa de quem tinha um televisor, as pessoas mantinha suas relações de poder graças aos instrumentos que eles possuíam. Aqui podemos relacionar outro aspecto, a riqueza é considerada uma forma de poder para Hobbes, um tênis de “marca”, uma roupa com etiqueta original e até um pastel na feira poderiam estabelecer uma relação de poder por meio da riqueza, essa riqueza para Hobbes está ligada a outro tipo de poder, a reputação, que nada mais é de como os homens são conhecidos, para ele, os homens poderiam ser amados ou odiados conforme sua reputação, na periferia existe essa relação de amor e ódio muito visivelmente. A eloquência e a beleza são outras duas formas de poder, ser eloquente na periferia pode ser relacionado ao poder de contar vantagem em determinadas situações, seja em uma partida de futebol, bem como um relacionamento amoroso. Os nobres também exercem poderes, porém seu poder é limitado ao local de onde ele tem origem, existe uma limitação geográfica no poder da nobreza, muitos vizinhos mudaram para o Barreto depois de saírem de bairros da capital como Água Branca, Tucuruvi e o Horto Florestal, suas memórias saudosistas e seletivas transformaram esse bairros em condados de príncipes, mas no Barreto esse tipo de poder era limitado a memória. Em um lugar pobre, a ciência quase nunca é valorizada, quando me refiro a ciência, me refiro especificamente aos estudos, mas existia uma lógica relação de poder neste quesito, os meninos que estudavam no Esli ou no Renê, usavam uniforme, tinham mochilas de marcas e tênis legais de ir a escola, nós que estudávamos no Strauttman e no Edir éramos taxados de burros, em Hobbes encontramos a ideia de que o poder da ciência é deixado de lado pois quase ninguém conhece a ciência e ele só é válido para quem tem o domínio dele.
Outros conceitos importantes como valor, que é fruto de uma variável temporal pode ser observado no Barreto. Por exemplo, eu sempre fui muito ruim no futebol, apesar de gostar muito de jogar, logo eu era sempre um dos últimos a ser escolhido para os times.Entretanto existem dois momentos em que essa lógica mudava seus valores, o primeiro era quando o meu irmão mais velho (melhor jogador e mais forte que eu), exigia que eu fosse escolhido para jogar no time dele. Na segunda situação era quando a bola que estava sendo utilizada era minha. Para Hobbes isso é uma variável importante para medir o valor de uma pessoa. Obviamente este nesto não tem a pretensão de ser uma escrita acadêmica, mas é honesto em suas aproximações, espero que vocês apreciem com moderação.




