segunda-feira, 20 de julho de 2015

Dona Zúleide


            Eu sei, parece estranho iniciar esse texto com um “Dona Zúleide”, muitos pensariam que eu deveria chama-la de vó, avó ou vovó. Mas “dona” é a nomenclatura mais carinhosa e preciosa que eu posso usar para ela. Nesta enfática madrugada de domingo para segunda, minha cabeça não para de pensar. O corpo já está recuperado de uma madrugada cheia de debates tristeza e lembrança. O carinho dos amigos que mesmo sem conhecer passaram a madrugada todo me deixando confortável e mesmo dentro de um carro apertado, com sono, fome  e cansaço eles não arredaram o pé, o choro dos parentes e a voz de minha mãe que com toda a sua fragilidade se forte diante de um gigante desafeto que a vida lhe colocou, tudo isso ainda está vivo em meus pensamentos, intrínseco a essa madrugada. O pensamento não para, é como um grito alto, estridente, ecoante em minha mente, porém terrivelmente silencioso.
            Não existe dor na ausência, a ausência por si já dói mais do que a própria dor. Como no ditado que minha avó repetiu diversas vezes: “O que os olhos não vêm o coração não sente”, logo hoje isso faz todo sentido, pois se sentir é dor, mas não ver é ausência. Não fui criado por minha avó, diferente da maioria dos meus primos tive um contato muito reduzido com ela. Morei em Arujá quase toda a minha infância e boa parte da minha adolescência. Dona Zú como eu a chamava, nunca foi de passar a mão na cabeça, mas  sempre tinha uma expressão que me fazia ficar à vontade, um sonoro e longo  “arrraaaaa menino”. Apesar de olhos lindos e um sorriso fácil, o que me chamava atenção eram seus cabelos, lisos, finos e macios, parece que eles pediam para eu bagunça-los. Ainda guardo na memória o sabor e o cheiro do pão do Jaraguá com margarina Qualy, que ela preparava quando eu dormia lá. Aliás dormir na casa da vó sempre foi muito legal, a comida não era rica em diversidade, alias a diversidade pouco importava quando tinha a mesa aquele feijão, famoso, encorpado de cor impar e sabor inigualável. Que minha mãe não leia essa parte, mas o feijão da vó é bem melhor que o dela. Meu pai sempre dizia: “ir ao quintal e não ver a D. Zuleide é como ir a Roma e não ver o papa”. E ele tinha razão, do alto do quintal sentada em sua cadeira de madeira ao lado da porta, ela tinha a visão privilegiada do portão, e de tudo que acontecia. Sabia da peculiaridade de cada filho e da mania chata de cada neto, guardava um carinho especial por cada bisneto. Como uma rainha era venerada por todos e abençoava a todos na entrada e na saída. Nunca me perguntou sobre o que eu tinha comprado ou quanto recebia. Para ela minhas conquistas financeiras e profissionais nunca foram mais importantes do que eu. Quando casei vi um orgulho bom em seus olhos, e ela com um sorriso de menina recebeu um beijo do noivo que precisava de uma pausa em sua marcha ao púlpito. Orgulho esse que dizia de maneira silenciosa muita coisa mas que me passava a ideia de estar aprovado até ali.
            Nordestina, pobre, sofrida, viúva, filha da terra mais linda desse país, lutadora que com amor criou todos os seus filhos. Saudosista como toda baiana, e como todo migrante cheia de histórias que prendiam atenção e davam saudade de um tempo que nunca vivemos. Sempre com o espirito em pé, pronto para a briga, que com os punhos serrados brigou contra a seca, a violência doméstica, a pobreza, contra os dessabores que a vida coloca e o luto, e a dor da perda de filhos e entes queridos. A quem diga que ela perdeu a última briga, mas quem a conhece sabe que ela ainda este presente em cada um de nós, filhos, netos e bisnetos. Inclusive nesse que vôs escreve, do qual não nega sua origem de neto, neto da Dona Zuleide.